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A Melhor Amiga da Barbie

Eu não sou o meu corpo.

27.04.14 | Ana Gomes

Eu não sou o meu corpo. Não sou. 

Mas é aqui que estou. O meu corpo dói, mas dói-me mais cá dentro, num sitio que não é dele mas que lhe pertence. 

 

Estou sentada e olho para as minhas pernas. Não as reconheço. Tenho demasiada carne a mais as coxas estupidamente largas. Como é que me posso reconhecer aqui? Não consigo. 

 

A ironia vive nas três malas de roupa fechadas, seladas, prontas para serem despachadas. Lá dentro kilos de tecido, esses kilos a mais na mala são os que estão a mais nos meus braços. O volume dos sacos que não fecham é equivalente ao da minha barriga que não suporta o fecho das calças. 

Eu choro por dentro. Queria-me rir de mim. Mas só quero chorar. Quando pesava 43 kilos olhava para o espelho sentia-me gorda. Vestia o XS e o 34. Era feia de magra, mas olhava para o espelho e via uma barriga proeminente, umas pernas roliças. Estúpida. Ainda assim mais estúpida na altura do que agora. Agora há um facto visual e numerário. Olho para o espelho e vejo-me da mesma maneira ( quero com isto dizer gorda na mesma ) mas agora gorda de verdade. Não se podem ofender as pessoas que pesam mais 10 ou 20 kg do que eu. O que me torna diferente de muitas dessas pessoas é a profunda infelicidade que isto me traz, o sentimento de culpa que trago, as centenas de comprimidos que tomei com a convicção absoluta de que me prendiam à vida. Escusado seria prenderem-me desta forma. 

Leio sobre muitas coisas. Leio também sobre pessoas que perderam peso. Os chocolates que deixaram de comer, os hambúrgueres, os fritos, as gomas e os pacotes de bolachas que deixaram de fazer parte das suas rotinas. Se eu deixasse de os comer nada mudaria. Porque nunca fizeram parte da minha alimentação. Se NUNCA comi um chocolate ou uma batata frita? Comi claro. Mas "sopa sem batata", pedir "uma salada ou legumes a acompanhar" não são conselhos, . Se há erros alimentares? Há claro! Mas nada que justifique isto. Garanto, não é uma mentira. Houve alturas em que um iogurte servia para 4 refeições. Mas já experimentei um pico de falta de saúde e não quero voltar ali. Tenho medo de fatiar em 4 uma maçã e comer um gomo por dia. Hoje não me sinto mais saudável. Sinto-me uma pessoa mais presa à vida, sim. Mas pouco confortável. 

 

Há alturas em que penso o que seria, como seria se comesse em espelho o que comem as pessoas - normais - que me rodeiam. Penso o que seria se não fosse ao ginásio. Nas minhas gavetas - L e 42. Nos dias melhores. Nos restantes - XL e 44. Milhares de editoriais de moda. Milhares de sonhos. Fotografias? Não quero tirar obrigada. Um bikini? Sei que um ar bronzeado me poderia devolver alguma auto-estima mas recuso-me a estar de bikini ao sol. Nem comigo. Quanto mais com as outras pessoas. 

 

Era mais fácil se aprendesse a viver assim. Há pessoas felizes assim que se sentem no corpo. Invejo-as. Garanto-vos que as invejo e que hipocrisia seria dizer que não tenho. Gostava de pesar menos 15kg, mas para já mais do que gostar precisava de saber viver com este corpo : Não sei. Socialmente a minha vida está comprometida. Não gosto de experimentar roupa e fujo dos espelhos - literalmente. Não há uma peça de roupa que me salve o humor. Vão-me valendo as calças de cintura subida que me espremem o orgulho. São também a constante lembrança do tamanho do meu estômago culpa do desconforto contorcionista de viver aqui. 

 

As vicissitudes de este não ser o meu corpo é a infelicidade me enfiar ainda mais dentro dele. Sorrio ás vezes, na maiorio delas quando me esqueço da amalgama hormonal em que me sustento.

 

As coisas são o que são. Este é o corpo que é. Mas não sou eu. 

 

Isto são factos. Não são para ser refutados ou alterados. 

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