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A Melhor Amiga da Barbie

Diário Dela #13

03.12.13 | Ana Gomes

 

 

"A racionalidade é lixada. 

 

Tenho-me lembrado de ti. Não são saudades. Não é nada disso.

Quando me lembro de ti, não és tu exactamente. Mais do que dificil é complicado explicar. 

Eras uma forma de estar na vida. Não tu exactamente mas o que resultava de ti. 

Mas é tão dificil explicar-te, por ser tão simples, que não escrevo sobre ti. 

 

Começa com a forma como nos conhecemos. Tu com um grupo de rapazes, rodeados de raparigas giras. E eu ali por acaso, não contra vontade, mas contra planos. Estava com três amigos e nem dançar me apetecia.

Já nos tinhamos cruzado antes. Na rua, sorriste e piscaste-me o olho, eu revirei os olhos, vieste ter comigo e disseste : Tens graça, queres vir sair connosco? Eu pensei que devias ser um convencido do caraças e disse-te que não, que não ia sair sequer, estava a caminho de casa. E seguiste o teu caminho. Sem tretas. 

 

Claro que duas horas depois eu não tinha ido para casa. Mas não foi por tua causa. Quando me viste, atravessaste tudo, paraste à minha frente, ignoraste a minha companhia, afastas-te o meu cabelo e disseste "Então, vieste atrás de mim?". Convencido. Convencido. Não, não fui ali por tua causa. Foi o que pensei na altura, foi o que respondi na altura. 

 

E foste embora. Foste embora porque outra coisa não faria sentido. 

 

Fui ao bar, e tu foste também. E disseste... "Ouve já percebi que estás acompanhada, só quero perceber se te posso ver. Noutro dia, noutro sitio qualquer." 

 

(Eu não estava acompanhada, não no sentido "amoroso"). 

 

Mal tu sabias como estavas a jogar em casa. Eu não queria rigorosamente nada. Não estava à procura de ninguém. Adorava a minha liberdade. Ser dona das minhas vontades, decidir por mim, dona do meu corpo, não ter que dar satisfações a ninguém. Estava no auge do feminismo. E só não queimava soutiens porque adorava lingerie.

É um facto que muitas vezes tinha discussões monumentais com a minha consciência. Mas depois fazíamos as pazes. 

 

E foi por isso que te disse que me podias ver, podias-me ver no dia seguinte se quisesses. Escrevi uma morada nas notas do teu telefone quando me pediste o meu número - que não te dei. 

 

" Isto é tanga não é? " disseste, eu disse-te que podias ou não acreditar em mim, não tinha como nem porque te provar nada. Disse-te só que ia lá estar. Que a casa não era minha, mas era onde estava a ficar. 

 

E estava. Tocaste à campainha, e enquanto subias as escadas pensei no que estava a fazer.

Tremia, num misto de vergonha, nervos. Sei lá. Era de dia. 

De noite era sempre tudo mais fácil. 

 

E eu desejei muito que a luz automática das escadas fosse ao ar. Não foi. Cinco lances de escadas depois estavas lá. És giro.

Tão giro que eu sabia que eras um poço de problemas. Que eras aquele tipo de pessoa com que ninguém pode descansar, mesmo que sejas a pessoa mais leal do mundo. Mesmo que sejas só conversa mole e 1,90 de gente. Caraças, o teu sorriso é incrivel. 

No lapso de tempo em que tive oportunidade de tirar esta conclusão, percebi também que devias estar mais do que arrependido de estar ali. 

Tens pinta. Tanta pinta. 

 

Acho que caí do pedestal das minhas tretas todas liberais. De repente transformei-me naquilo que nunca fui: A adolescente encantada com o protagonista da telenovela. 

Pequena nota: Eu não era uma adolescente e essa foi a minha sorte. "Sê Racional!"

Desejei que quando falasses fosses a pessoa mais desinteressante do mundo. 

Não aconteceu. 

 

O que aconteceu foi tão intenso como irreflectido. Mas não quis pensar nisso. A intensidade correspondia proporcionalmente ao meu desejo. E três horas depois quando te foste embora, eu ainda tremia. Agora reflexo do prazer. Agora consumida, consumada. Num delírio puro, em transe. Como num filme. A tua pele, tão macia, tão doce. Nada em ti era delicado, as tuas mãos eram firmes, o teu corpo era um monumento. Mas não eras bruto. Fazias-me sentir tão frágil, porque me apreciavas, porque eras estranhamente dedicado, e na ironia das expressões isso fazia-me forte. 

 

Não te quis dar o meu numero de telefone, dei-te o meu e-mail. Quinze minutos depois já tinhas dado uso ao endereço : 

"Vamos jantar?" 

 

Claro que não vamos jantar. Claro que não. Não. / Mas queria ir. Da mesma forma que na noite em que nos conhecemos queria que me tivesses agarrado e me tivesses virado do avesso. Não fui. 

 

Encontrámo-nos algumas vezes. A tua insistência foi motivo de muitas negas. Como a tua persistência deu lugar a alguns "sim". 

 

Muitas vezes ardia de vontade, queria estar contigo. Mas... foi tão bom ter sido racional. Tu eras todo o género "capa de revista" e menino de novela, e com todos os estereótipos que estão nestas palavras, isto queria dizer que correspondias a um ideal de beleza padronizado, e isso fazia-me dar dez passos para trás. 

 

Mas o melhor da nossa história era eu saber exactamente aquilo que tu eras para mim, tu não perceberes bem aquilo que eu era para ti. E ambos estarmos cientes do que se passava entre nós. Desejo / Consumação. 

 

Tentámos sair um dia, os teus amigos eram simpáticos, mas a noite foi horrível. 

Não falámos sobre isso. 

 

Estávamos bem juntos e eu compreendo porquê, eu aceitava-te como Cabrão - Desculpa mas é a palavra. Não brincaste com o meu coração. Não porque eu não o usei. 

Tu insistias em estar comigo porque nunca tinhas lidado com a rejeição. Como se me quisesses mostrar que eras tão desejável que acabaria por me viciar em ti. 

 

Deixámos de falar porque eu deixei de responder. E tu percebeste que a facilidade com que te deixei entrar por aquela porta, foi a mesma com que te fiz sair.

 

 

Não tenho saudades tuas. Não sinto a tua falta. 

Mas lembro-me muitas vezes de ti, principalmente porque nunca fomos mais do que quisemos ser. 

Porque não havia mentira, nem obrigação. Quando adormecia no teu peito era natural. Quando saía de tua casa sem fazer barulho para acordares sozinho... não havia nada de errado. E quando aparecias à porta do meu trabalho e me agarravas pela cintura, só para me dares beijos e me apertares contra o teu corpo forte, eu morria de vergonha, e vibrava com aquela forma de me desejares assim.

 

Como eu era. Sem me criticares. Sem me tentares perceber. 

Querias-me como eu era. Simples. Só por querer. 

 

Espero que tenhas aprendido a Amar, falavas tanto disso. 

Eu não aprendi."


Diário Dela



 

 

 

 

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