Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Melhor Amiga da Barbie

Diário Dela #16

01.10.13 | Ana Gomes

"No dia do teu aniversário o meu lugar estava marcado na mesa. 

Por uma questão de boa-educação e de auto-mutilação, fui. 

 

Fiz o caminho que ligava a nossa casa aquela casa a conduzir aos soluços.

Respirei fundo e tentei-me concentrar no bem que aquelas pessoas me fizeram. 

Pior. 

Tão pior. Muito pior. 

Perder tudo. 

Não há ilusões sobre o final. O que se mantém nunca é por inteiro. Vem outra pessoa, que "nunca nos vai substituir", mas vai ocupar o nosso lugar. Pelo menos naquela mesa, naquele lugar. E sem rodeios, em todas as mesas, em todos os lugares. É uma aprendizagem. 

 

Não facilita.

 

Estaciono o carro. Flores para a tua mãe. 

 

Fui. Fui até ali sabendo o que tudo isso significava. Todos longe de imaginar a decisão que tinhas tomado. Só eu e tu. No fundo as únicas pessoas a quem isso diria respeito. Era assim mesmo. A minha cara não iria conseguir esconder isso, tu sabias, mas pediste-me para ir na mesma. 

"É importante para ti?" "Sim, por favor, não me estragues o jantar. Vão fazer perguntas se não estiveres, e é sempre menos mal." 

Ahahah

Queria ouvir " Sim, por favor, não me estragues o jantar. És tão importante, quero que estejas perto."

 

Se é importante para ti, claro que vou. 

 

Sei bem que mais do que presentes, levava o desejo de continuar ali. De no fim do jantar sair dali contigo. E no próximo ano ter aquele lugar reservado à mesa e um sorriso impecável.

Flores para a tua mãe também claro. 

 

Não me lembro de palavra nenhuma, ou de conversas em particular.

Lembro-me de me despedir patéticamente de todos os talheres e copos, de aproveitar o momento em que se apagam as luzes para choramingar, e ver a tua cara iluminada pelas velas que sopraste. Apagaste o "nós" com a mesma facilidade com que apagaste as velas.

Caramba, e eu ali, a ser sentimental com objectos? Despedir-me de facto daquele ambiente, daquelas pessoas todas sem o fazer verbalmente? Sem os abraços e os "tenho tanta pena" - que chegaram depois por telefone. 

 

Por motivos naturais iria ter de te ver mais vezes. E de ti não me sabia despedir. Queria-te ver todas as vezes. Queria pensar que a excepção seria a ausência. 

 

Mentia-me. Escondia-me atrás da esperança do "gosto tanto de ti que não sei porque decidi isto." Ias decidir certo. Ias mudar de ideias.

Antes de eu mudar de vida, de país, de ideias, de ideais. Tu ias voltar para o meu sofá, para as nossas viagens de impulso, para as madrugadas de filmes, para as gargalhadas, para as cenas inóspitas que nos faziam pulsar. E para aquela atracção louca que nos juntou no meio de tanta gente em comum que nem sabíamos que conhecíamos. Quando nem sabíamos muito bem o que iríamos ser um para o outro. 

 

Voltei para casa. A soluçar no carro. Com a música tão alto que não me conseguia ouvir pensar. Muito provavelmente não ia a pensar em nada. 

Dói-me muito. Doeu-me tanto. 

Pior foi acordar da dormência. Pior foi chegar a todas estas conclusões. 

Pior foram as nódoas negras depois do sangue pisado. "

 

Do Diário Dela... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6 comentários

Comentar post