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A Melhor Amiga da Barbie

Diário Dela #14

06.08.13 | Ana Gomes

 

 

 

"Há dias em que o mundo me enerva.

 

Olho para as noticias, olha para as mensagens, olho para tudo e começa. 

Re-começa. 

 

A semana passada deste-me a explicação que precisava.

Senti-me a corar. Eram 4 da tarde, a água da massa do almoço começou a borbulhar, eram estes os nossos horários. Almoços sempre por volta das cinco. 

Eu olhava para ti e pensava que queria ser aquele monte de legumes em que tu pegavas e misturavas debaixo da torneira. 

 

Disseste :

Sabes porque é que não te toco? Porque perdeste o interesse.

 

Fiquei sem cor. Acho eu. Eram 4 da tarde, a água da massa começou a sair por fora da panela, correste para baixar o lume. A água do meu corpo começou a escorregar pelas maçãs do meu rosto desmaiadas.

 

Continuaste :

 

E não te ponhas com merdas. Não é o teu corpo, nem a tua cara. É... intelectualmente... perdeste o interesse. E a culpa disto é tua. É principalmente quando falas, ou quando te calas. Já nem sei. Não tenho a mínima vontade de te tocar. 

 

Uma semana depois continuo a sentir a culpa das coisas todas. De tudo. Da tua tristeza. Do teu desalento. Da tua não vontade. Da minha atrasadice mental. Das minhas - cada vez mais demoradas - manhãs ao espelho a encher-me dos segredos que as mulheres guardam, que nos fazem parecer mais bonitas, mais perfeitas, mais ao teu gosto. Tentei não te irritar com a minha forma de vestir, lembrar-me de cór de todos os conjuntos que tinhas elogiado. Repetir as conjugações. 

Uma semana depois percebo que o iman que activei estava com os polos invertidos. 

MERDA. 

 

Deixei de ir ao cinema para te poder dar apoio, deixei de ver filmes em casa para podermos utilizar o tempo ao nosso ritmo. Conciliar o meu emprego com o teu horário. Passei meses a trocar os jantares demorados com os meus amigos, por planos indefinidos com os teus. Sem me sentir mal por isso. Envergando dentro de mim um orgulho de proximidade. Envergando para ti um rótulo de "pessoa desinteressante".

 

Disseste-me a maior verdade que alguém me poderia ter dito " Eu apaixonei-me por ti. Pelo que eras no dia em que te conheci."

 

A tua capacidade retórica ainda hoje me impressiona. Desculpa o meu português... Mas eras um filho da mãe cheio de razão. 

 

Fizemos amor em todos os sitios que imaginámos. Todos. Compreendemos a extensão do corpo um do outro numa prefusão não adjectivável, em que nos compreendíamos, satisfazíamos e corrompiamos o que a nossa imaginação sabia que não devia ser partilhado. Não conhecíamos uma coisa : os limites do razoável. Os limites dos jogos mentais em que a angústia era prazer. Em que saberes-me com outra pessoa era o apogeu da tua masculinidade. 

 

E subitamente, eu, o segundo elemento da equação matemática sempre certa. Estava errada. 

 

Intelectualmente desinteressante disseste tu. "

 


Do Diário Dela

 

 

 

 

 

 

 

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