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A Melhor Amiga da Barbie

Do Diário Dela #7

22.02.13 | Ana Gomes


"Acho que o dia estava mais ou menos como o de hoje. 
A principal diferença era esta : 
Naquele tempo existias tu. E depois existiam as outras pessoas. 

Esperavas por mim na esquina da rua - BUH!- pegavas-me na cintura e fazias-me rodar no ar.
Eu esperneava. Ria-me. E inclinava o corpo para trás, numa vertigem improvisada pelo movimento que me fazia subir o sangue à cabeça. Era uma princesa sem castelo. Infinitamente presa numa torre que eras tu. 
Não havia a noção de compromisso ou de promessa. Muito menos a capacidade de me embaraçares com comentários possessivos. 
Eu achava que não permitia. Claramente eu achava demasiadas coisas.

Ontem quando me vestia em casa dele lembrei-me de ti. Estava sentada na ponta da cama, com um cigarro no canto da boca e os olhos a arder do fumo. Pensei em como não suportavas as minhas meias subidas ou o meu risco nos olhos. Era simpática a forma que tinhas de o demonstrar. Irritava-te que usasse os ombros destapados. Eram um território teu. TEU - determinante possessivo. 

Não sei bem delinear a barreira dos dias, o ontem e o hoje, saí de casa dele em silêncio. Como se tivesse cometido um crime. Sem olhar para trás enquanto recolhia as provas da minha permanência. Assim defino ontem. Defino a passagem do dia no tempo que demorei a entrar no táxi e a chegar a casa. Pus a chave na fechadura, entrei. Assim defino hoje. As janelas abertas tinham convidado a chuva a entrar. Fechei a porta e no cliché mais cinematográfico encostei as costas à madeira, e fui descendo até ficar sentada no chão. Pernas estendidas. As meias rasgadas. Se tu me visses assim os teus olhos ter-se-iam enchido de sangue. Ri-me. Ri-me muito sozinha. 

Foi demasiado o tempo em que era determinante para mim ser tua.
O meu sofrimento foi - acima de tudo - gramatical. "

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