Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Melhor Amiga da Barbie

Dos Dias em histórias.

05.08.14 | Ana Gomes

 

 

O despertador tocava as 6. Outros dias às 6.20. Dependia sempre do banho.  

 

Honestamente não me lembro a que horas me deitava. Mas deixava sempre tudo pronto. A roupa dobrada na cadeira, os cadernos na mala ( larguei a mochila demasiado cedo ), as canetas e as bugigangas. 

Se fosse hoje levava o triplo das coisas. Gostava de recuperar aquele modo desajeitado e destemido. Na altura maquilhava-me com lápis branco e preto e com baton do cieiro. O cabelo dava pouco ou nenhum trabalho já que numa tarde em Lisboa tinha trocado - ao engano - os caracóis que me tocavam o meio das costas por um corte muito alternativo pela altura das orelhas. 

 

Quando chegávamos à estação de comboios sorriamos uns para os outros e procurávamos ocupar rapidamente os compartimentos isolados. O Bernardo subia para o apoio das malas e tentava sempre fintar o pica. Não é que ele não tivesse passe... fazia-o por diversão. Ficávamos ali aninhados uns nos outros, principalmente no Inverno em que os casacos serviam de mantas, e diziamos disparates. 

 

Eu gostava de ir ao lado do Timota. Ou do Zé. Com o Titi falava o caminho todo. Sempre foi um sonhador, sofreu demais na altura errada e provou desde cedo que era um Homem bom. Já o Zé era o meu amigo super protector. Tínhamos sido namorados, uma coisa muito a sério quando ainda éramos uns putos, eu completamente apaixonada por ele já tinha chorado um mundo inteiro a achar que não iria sobreviver quando ele me trocou por uma miúda gira... 

 

Mas nos anos em que apanhávamos o comboio de madrugada já éramos os melhores amigos do mundo. Afinal de contas eu tinha sobrevivido... e ele continuava a ser o "rei" do liceu. 

 

Na viagem de vinte minutos que atravessava campos de cultura e as muralhas do castelo de Óbidos iam entrando muitos outros amigos estação atrás de estação. Hoje sei que os cigarros que se fumavam neste espaço de tempo eram um exagero, mesmo se fossem hoje, sê-lo-iam em qualquer idade. 

Por causa destes passarinhos precoces os cafés abriam cedo. Em muitos dias a Joana pedia-me para ficar para trás. Íamos as duas mais devagar e ficávamos noutro café. Pedíamos alguma coisa para comer e tínhamos conversas muito sérias e trocavamos conselhos muito ingénuos com sabor a SG MENTOL. 

 

Depois íamos apressadas e cumplices para as aulas. O almoço era sempre o mesmo - um croissant de canela com queijo, por favor. E depois um café cheio. 

 

Fugíamos dos professores. Claro.

Mas quando estava sozinha, geralmente à espera do André, sentava-me perto da professora Teresa.Por estas horas todas vagas ouvi os Maias muitas vezes. E li-os outras tantas.

 

Tive várias paixonetas naqueles três anos. Convenhamos que me apaixonava com muita facilidade e geralmente sempre pelo inalcançável. E isso não queria necessariamente dizer um rapaz giro e muito desejado. Era quase sempre um rapaz mais velho, mais desengonçado e geralmente do grupo de amigos do namorado de alguma amiga. Os giros eram parvos e eu só os queria para amigos. Naquela altura todas as aulas eram o desejo de algum acontecimento épico no intervalo. Eram trocar papelinhos e mensagens com encontros, eram sms e toques entre telemóveis para traçar um plano. Era ir comer à cantina só porque o Hugo também ia e o "mano" João me tinha avisado. Era perguntar dez vezes se no final do dia iamos ao Parque comer um gelado na esperança que me deixassem no comboio para uma despedida à filme. 

 

Era juntar moedas e mais moedas para uma vez de duas em duas semanas irmos almoçar a uma pizaria. Beber sangria ao almoço e tentar sobreviver a uma tarde de aulas com uns copos a mais. A Catarina que tinha sempre uma postura muito adulta e fumava um cigarro entre as entradas e o prato principal, a Nádia que sempre me compreendeu com os olhos muito abertos. A Paula... a quem perdi o rasto sem querer. E a Xoana, que era Joana com Xis, e a Raquel as minhas companhias de disparate e inveja já que éramos as únicas três miúdas autorizadas no cantinho mais privado e "cool" da escola. 

 

Dividia-me entre grupos de amigos porque nunca fez sentido para mim que as pessoas não se dessem.

 

Naquela altura faltar um dia às aulas era perder coisas muito importantes - nunca matéria... se bem me entendem. 

 

Era ficar escondida nos placares do rés do chão do bloco B para a professora, da aula a que me ia baldar, não me ver. Era chegar quase sempre depois do toque e pedir desculpa com aquele ar de que teria sido impossível chegar mais cedo porque tinha estado a resolver assuntos importantíssimos.

 

Foi por essa altura que fui muito mal habituada. Um namorado tão doce que todos os dias - sem excepção - chegava mais cedo e ia embora mais tarde para me fazer sempre companhia. Me dava gomas e rebuçados em forma de coração e guardava as tampas dos iogurtes com frases para enfeitar os meus cadernos. O mesmo namorado que foi trabalhar duas semanas para poder ir comigo de autocarro para Barcelona depois de lhe ter explicado que afinal não gostava dele assim.  

 

Eu era tão feliz. Tão feliz com coisas tão simples. 

8 comentários

Comentar post