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A Ansiedade e o Regresso às aulas.

por Ana Gomes, em 19.09.13

 

 

 

 

 

Ainda sobre as ansiedades e os medos. 

 

Estou numa paranóia indecente e inexplicável com a minha reentrada no mundo académico.

 

Se paro uns segundos para olhar para as minhas mãos percebo que tremem. Estou desconfortável. Sinto-me com um buraco, ou com um saco cheio - já nem sei! - na barriga. 

 

Estava a voltar do Porto no Alfa para Lisboa e enquanto me entretida no I-Pad encontrei este curso. Na altura tudo parecia fazer sentido. Ainda durante a viagem enviei um e-mail, na esperança que estivesse para começar, já que era uma publicação recente, mas já tinha começado. Nova edição só em Setembro. 

 

Na altura estava numa licença sem vencimento, e queria tirar o máximo partido de todo o tempo, e estava - para todos os efeitos - numa fase mais relaxada e menos ansiosa. 

Não querendo estagnar intelectualmente, e compreendendo as vantagens de estar inserida num contexto rigoroso fora do local de trabalho, fiquei mesmo contente quando percebi que o preço das propinas nem seria um problema, comparativamente a outros cursos que andei a sondar.

 

Resumindo : Eu queria MUITO fazer este curso. 

 

Quando as coisas começaram a ficar menos fáceis, como partilhei convosco num post, quando voltei a uma fase menos pró-activa e disponível emocionalmente... A primeira coisa que me passou pela cabeça foi, não vou conseguir. E na altura o meu Pai, que é uma pessoa muito razoável, e que sempre fez questão que nem eu nem o meu Irmão parássemos de estudar, supreendeu-me ao sugerir que se eu achasse que não era a altura, então para o ano voltava a inscrever-me. E agora reservava mais tempo para mim.

 

Neste momento, e a escassos minutos da primeira aula, sei que o meu Pai tem toda a razão. Não me devia ter pressionado a ir. Não devia, numa altura em que mal posso com as rotinas que tenho, ter acrescentado uma obrigação e uma fonte de stress ao meu calendário. E existe uma guerra fenomenal dentro da minha cabeça.

 

Nos últimos tempos e pensando nisso acabei por me concentrar naquela viagem de comboio em que este curso era mesmo aquilo que eu estava a precisar. E hoje lá fui eu inscrever-me, com a nítida sensação que estava a dar estalos em mim própria. A culpa não é naturalmente do curso, ou da escola, ou dos exames... 

 

Daqui a pouco começa a primeira aula do primeiro semestre. 

E eu, que deveria estar ansiosa por ir conhecer pessoas novas e aprender, estou num terror que nem eu consigo explicar. 

 

Bom... eu vou tentar. Mas se não conseguir, quero ser forte o suficiente para não me culpar. 

 

 

publicado às 17:54

"Este Medo Sem Sentido".

por Ana Gomes, em 28.08.13

 

 

Este é um dos posts mais íntimos que alguma vez aqui partilhei. 

E eu até falo bastante da minha vida por estes lados. 

 

No fim deste texto irei muito provavelmente pensar que raio me passou pela cabeça para me expor desta maneira - de facto esse pensamento já me assombra - mas... a verdade é que penso que ao expor uma situação poderei ajudar outras pessoas a sentirem-se menos sozinhas. Ou a olharem com outros olhos para pessoas que sentem coisas do género. 

 

Apropriar-me do título de um livro para explicar isto pode soar a desonesto, mas é a melhor descrição que existem " Este Medo Sem Sentido". 

 

Eu não sei dizer quando é que isto começou. Lembro-me de ter sempre uma tendência para a melancolia, uma aptidão para o vazio, para as actividades solitárias. 

Apesar de tudo, eu sinto-me um ser social, adoro conversar, adoro a companhia das pessoas, e gosto de actividades que impliquem estar com outras pessoas. 

Ou.. gostava, ou talvez goste só em algumas alturas. Não sei quais, não sei quando, nem consigo prever como é que estas alterações se processam. 

 

A verdade é que há momentos em que o meu desejo mais sincero é estar fechada, sozinha, sem obrigações, responsabilidades, ou qualquer tipo de dever social ou pessoal de me levantar da cama e viver o dia. Associado a esta apatia, vem um sentimento de culpa gigante, como se em mim vivessem duas pessoas. Ou se pura e simplesmente a minha educação repreendesse o meu estado. 

 

A que não tem vontade. E a que sabe que as coisas não podem ser assim e se resigna. 

 

Analisando as coisas friamente : Falo de boca cheia. Se pensar objectivamente que motivos tenho para me sentir assim ? Nenhum. 

Tenho a sorte de ter uma família incrível, de ter uma casa, um emprego, os cursos que quis tirar, as viagens que quis fazer, o frigorifico cheio, um telemóvel e as contas todas certinhas, sem dever dinheiro a ninguém, sem viver acima das minhas possibilidades. Tenho uma educação que me fez ser altruísta, e nesse sentido sentir-me um ser humano razoável. Tenho a minha dose de pecados, mas a certeza de que por outro lado a minha sinceridade me faz ter apenas uma cara. E se digo o que tenho a dizer, digo-o a quem de direito. 

 

Mais uma vez, não existe nenhum motivo que torne legitima esta dor, esta angústia ou esta falta de sentido. E por muito ridículo que tudo isto possa parecer, é isto que torna tudo ainda mais complexo. Quando conseguimos despistar o motivo da nossa tristeza, podemos trabalhar e tentar construir mecanismos de defesa. Atenção, eu não estou com isto a querer ser injusta, ou a dizer que é mais fácil ter um problema perfeitamente identificado, só considero que o processo mental que será preciso para o ultrapassar possa ser mais objectivo. 

 

Exemplo : Já me fui abaixo por ter terminado uma relação e construi os alicerces que me permitiram ultrapassar essa perda. 

 

Mas este caso é completamente diferente, e se existem períodos em que não sinto ( sentimos ) rigorosamente nada e está tudo a rolar... há outros em que tudo desaba, a atracção para o abismo é magnética e não conseguimos descolar daquele sitio esquisito. Onde não queremos estar. Acreditem. 

 

Não se trata tão pouco de querer chamar a atenção. Longe disso. 

Os ataques de pânico e de ansiedade não se tornam mais fáceis ao captar atenção alheia - pelo contrário. Nestes momentos estar sozinha até costuma ser o caminho mais simples, para não termos de expor a nossa fraqueza às pessoas que nos são queridas. Porque em última análise esta é a manifestação fisica que não conseguimos esconder e/ou disfarçar. 

 

Se digo a alguém que não quero ir jantar, ir ao cinema, ir sair, naturalmente que ninguém percebe. E se digo que não o consigo fazer, então muito menos. 

Mas dói. E explicar isto? explicar que o corpo se manifesta como se estivesse realmente a ser torturado? 

 

A semana passada fiz uma viagem de carro e durante uma hora e pouco, transpirei, senti todos os órgãos do meu corpo em tensão e a minha cabeça não parava de viajar para as situações mais sem sentido. Quando me disseram "está quase, já passou, estamos a chegar..." , a minha resposta foi idiota "isto só me vai passar quando estiver em casa, isto mal começou!". 

 

Se é medo de morrer? Não é de todo. A morte não entra nesta equação como algo que se teme. Pelo menos não na minha cabeça. 

Não é o medo de ter um acidente. Nada disso. 

 

Os maiores medos estão associados precisamente à vida, aos aspectos mais comuns : a responsabilidade de cumprir um horário de trabalho e não ser capaz, ter-me inscrito num curso e arrepender-me no momento em que recebo um mail a dizer que fui admitida, ter uma reunião marcada e não querer ir, ter um convite para qualquer coisa e pensar que estava bem era em casa enfiada na cama a beber um chá. Fugir da inscrição num ginásio, pela obrigação de o frequentar pelo simples facto de o estar a pagar. Ir jantar fora e sentir-me mal. Sentir-me mal ao pé de pessoas que não me conhecem, e passar uma péssima impressão. 

Digamos que existem reacções fisicas associadas a este mau estar e que são dificeis de camuflar socialmente, por muito que me esforçe. 

 

E é este ponto que me faz recuperar um post que aqui escrevi anteriormente e que falava da depressão, em que ao encontrar um livro sobre o tema eram sugeridos dois tipos de abordagem por parte das pessoas que lidam com estas casos - falo de pessoas "exteriores" à "doença", ou seja familiares/amigos/pessoas próximas do depressivo. Mas em que apenas eram contemplados os casos em que os mesmos compreendiam e aceitavam este estado. 

 

Ora isto não é real. A grande maioria das pessoas não aceita, não compreende e não sabe lidar com este tipo de patologias. E quem sou eu para culpá-las? Eu que não entendo de onde vem esta angustia, esta apatia, esta não vontade. Eu que vivo na pele, no corpo todo, e mais vezes do que gostaria com este mau-estar, que vivo numa luta comigo mesma por não o entender, como é que posso esperar que as pessoas que me rodeiam o compreendam? 

É frustrante? 

Bastante. 

 

Tanto para mim, como para todos aqueles que fazem tudo para que a minha vida seja espectacular, e mesmo assim eu continuo a preferir o caminho mais negro, menos simpático e mais azedo. E não é uma coisa de agora. A ironia do destino fez-me dar de caras com o livro que mencionei no principio, que se chama " Este Medo Sem Sentido... A Ansiedade na Adolescência" de A. Santos Pereira, que li quando tinha 10 anos. E que sublinhei. Eu que sempre achei que não "massacrava" os livros, encontrei provas do meu desespero precoce riscadas num livro. 

Não acho que tenha sido um "cry for help", aliás... nisso os meus pais sempre foram muito atentos, e quando eu cheguei ao ponto mais critico da minha saúde fisica, e eles se aperceberam de que todos os alarmes estavam a soar, procuram orientar-me da melhor maneira possível.

Não sei o que teria acontecido se não tivesse sido "resgatada". 

 

E este é também um ponto sensível na questão. Saber-me rodeada de pessoas que se esforçam por tentar compreender e ajudar e naturalmente... não conseguem. Porque aqui quem tem de fazer o trabalho sou eu. E quando eu sou a primeira a render-me ao desconforto... não há muito a fazer. 

 

Em conversa com um colega, ele comentou que eu era uma pessoa sorridente, com sentido de humor, que a minha presença iluminava e que nunca me imaginaria numa situação semelhante às que descrevi em cima. 

Eu não finjo ser o que não sou. Na verdade eu gosto de me rir, gosto de sorrir, gosto da partilha, gosto das coisas todas que ele enumerou. O que eu não gosto é dos meus períodos negros. Desses é que eu não gosto. E são esses que não consigo perceber. É desses que eu queria fugir. Mas as soluções provocam uma dor que os pensos rápidos desta vida não conseguem curar. 

Dizem que o principal é "não fazer evitamentos", mas no meio disto tudo, passar a vida contrariado para não fazer os tais evitamentos também não é pêra doce. 

 

Como não é pêra doce olhar para o espelho e ver os meus olhos vazios, e ver os olhos das pessoas que se preocupam em modo desespero de não saber o que fazer. 

 

E a tendência em mim cresce para o isolamento, para o afastar as pessoas, porque por muito grande que o amor seja, não acho justo privar alguém das suas vontades, liberdades, e acima de tudo da sua vida social, quando a minha vontade é de me isolar. Encerrada num mundo onde a culpa e o silêncio são meus. De mais ninguém. 

 

___________________________________________________

 

Tenho recebido uma série de mensagens e e-mails de pessoas que partilham situações semelhantes, por este ou por outro motivo decidem partilhar comigo coisas que se passam nas suas vidas e as impedem de progredir, apesar de eu nunca ter partilhado a minha situação no blog.

Por compreender isso, por compreender o lugar onde essas pessoas estão, decidi que hoje a minha catarse seria pública. Porque sei que há mais gente a viver "este medo sem sentido", e por muito revoltante que seja, por muito incapacitante que tudo isto acabe por ser, não estamos sozinhos. E sabendo bem que isto não melhora nada, porque não desejo a ninguém que sinta isto, pelo menos sentimo-nos menos anormais, numa sociedade em que a pressão para que tudo se desenrole nos parâmetros da "normalidade" nos faz sentir uns fora-da-lei emocionais. 

publicado às 21:33


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