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A Melhor Amiga da Barbie

02
Jan14

Diário Dela #15

Ana Gomes

 

 

"Caminhei mais de vinte minutos à chuva.

Saí de casa de jeans e t-shirt. Um casaco de malha, muita vontade e o claro desprezo pelas previsões meteorológicas.

 

Começou a chover pouco depois, não me procurei abrigar, caminhava depressa. Caminharia naquele ritmo mesmo que estivesse um sol abrasador.

 

Cheguei ao átrio do teu prémio encharcada, ofegante. A porta de metal pesada nunca fechava. Subi as escadas. Duas de cada vez. As pestanas com gotas de chuva, primeiro a pingar do cabelo, agora a escorrer pelas minhas bochechas.

Toquei à campainha. Sem perguntas abriste a porta. Podia ser o carteiro, a vizinha de cima, o vizinho da frente, o teu assassino.

 

Era eu com o coração acelerado da caminhada, com a adrenalina de ter chegado até ali sem porquês nem perguntas. Entreguei-te a chuva toda que tinha caído lá fora. Que a roupa ensopada tinha guardado.

A minha pele gelada e o cabelo encharcado não eram condição suficiente para apagar as labaredas de um fogo há muito aceso. A tua camisa branca sempre irrepreensível, contraste perfeito da nossa moral, neste segundo manchada do lápis preto que trago nos olhos, do baton cor de cereja que deslizava pelo teu corpo nos meus lábios.

 

Mesmo que que o negues... enquanto esta for a nossa natureza, a tua casa não te protege dos temporais. . "

 

Diário Dela

18
Dez13

Diário Dela #14

Ana Gomes

 

 

"Estou há semanas nisto.

Já escrevi sobre isto, já bebi sobre isto, já fumei sobre isto.

Preciso de uma balança para os sentimentos e de um peso e uma medida para a vida. 

 

Tenho-me tentado convencer que faz sentido estarmos juntos. Mas só a concretização desta frase está errada. 

A verdade é que não percebo como é que ainda nos continuamos a pertencer. 

 

Eu não estou apaixonada por ti. E tu raras vezes estiveste. 

O problema é que quando eu não acreditava no Amor, eu sabia o que ele representava. Havia um sentido, uma força, um sentimento, que eu conhecia mas no qual teimava em não acreditar. Agora já não sei. Garanto-te. Já não sei. 

 

Não existem coisas nossas. Nada é meu e teu ao mesmo tempo. Chega a ser engraçado que construas uma espécie de vida em conjunto em que nada é dos dois. Acho que são privilégios dos tempos modernos. 

 

Sobre a equação Eu menos Tu, doi-me o igual. 

Sinto a tua falta quando não estás comigo. Sinto que sei que se não estivesses por muito tempo ia ficar sem voz. Sei que cuidas de mim. Sei que teria de te esquecer, morrendo aos bocadinhos por querer ouvir-te falar das ideias que tens para a vida. 

E quando a noite chegasse adormecer sem ti para sempre seria doloroso. 

Mas a isto chama-se hábito. É o comodismo de que o ser humano tende a depender. É por isso que ainda estamos aqui os dois. Não porque nos amamos. Mas porque é mais fácil do que lidar com a dor da falta.  

 

O problema é outro. O problema é que tudo o que sinto por ti, e tudo o que sinto por imaginar que nos vamos embora daqui é isto : Sinto menos por ti agora. Sinto menos por ti do que já senti noutros momentos, com outras pessoas, na hora de escolher ou de ter de aceitar a inevitabilidade. 

 

Preciso que saibas que há alturas em que me apetece que alguém me deseje. E que esse alguém não sejas tu. Preciso de alguém que me faça sentir melhor, que por um tempo pequeno que fosse, tivesse o capricho de pensar só em mim. De me querer surpreender. Alguém que me fizesse os olhos brilhar pelo tempo suficiente para ficar minimamente feliz. Mesmo que fosse como nos filmes. Aliás, gostava que fosse mesmo como nos filmes. Apesar de não acreditar que fosse possível prolongar isso por muito tempo, queria uma vez que fosse, ter um turbilhão no fundo da barriga que me acelarasse o coração. E sei que não está certo. Que não devia desejar que outra pessoa fizesse um papel que te cabia a ti. 

 

Tenho tantas indecisões sobre o futuro. Mas a certeza de que não me apetece estar em água morna. Estar sozinha sim. Ou viver uma história tão intensa que me falte às vezes o ar. E tu sabes que apesar de eu não acreditar no Amor, acredito na perfeição. Na medida em que ela é feita de todos os erros, de todos os conflitos, de todos os desatinos da estrada direita. Mas isto não.

 

Enquanto olho para ti, sem que queira que percebas o que se passa, penso :

Fico quieta e deixo acontecer, ou dou-te a liberdade para ires procurar a vida que não te vou dar? "

 

 

Diário Dela - Cartas. 

 

 

 

 

 

03
Dez13

Diário Dela #13

Ana Gomes

 

 

"A racionalidade é lixada. 

 

Tenho-me lembrado de ti. Não são saudades. Não é nada disso.

Quando me lembro de ti, não és tu exactamente. Mais do que dificil é complicado explicar. 

Eras uma forma de estar na vida. Não tu exactamente mas o que resultava de ti. 

Mas é tão dificil explicar-te, por ser tão simples, que não escrevo sobre ti. 

 

Começa com a forma como nos conhecemos. Tu com um grupo de rapazes, rodeados de raparigas giras. E eu ali por acaso, não contra vontade, mas contra planos. Estava com três amigos e nem dançar me apetecia.

Já nos tinhamos cruzado antes. Na rua, sorriste e piscaste-me o olho, eu revirei os olhos, vieste ter comigo e disseste : Tens graça, queres vir sair connosco? Eu pensei que devias ser um convencido do caraças e disse-te que não, que não ia sair sequer, estava a caminho de casa. E seguiste o teu caminho. Sem tretas. 

 

Claro que duas horas depois eu não tinha ido para casa. Mas não foi por tua causa. Quando me viste, atravessaste tudo, paraste à minha frente, ignoraste a minha companhia, afastas-te o meu cabelo e disseste "Então, vieste atrás de mim?". Convencido. Convencido. Não, não fui ali por tua causa. Foi o que pensei na altura, foi o que respondi na altura. 

 

E foste embora. Foste embora porque outra coisa não faria sentido. 

 

Fui ao bar, e tu foste também. E disseste... "Ouve já percebi que estás acompanhada, só quero perceber se te posso ver. Noutro dia, noutro sitio qualquer." 

 

(Eu não estava acompanhada, não no sentido "amoroso"). 

 

Mal tu sabias como estavas a jogar em casa. Eu não queria rigorosamente nada. Não estava à procura de ninguém. Adorava a minha liberdade. Ser dona das minhas vontades, decidir por mim, dona do meu corpo, não ter que dar satisfações a ninguém. Estava no auge do feminismo. E só não queimava soutiens porque adorava lingerie.

É um facto que muitas vezes tinha discussões monumentais com a minha consciência. Mas depois fazíamos as pazes. 

 

E foi por isso que te disse que me podias ver, podias-me ver no dia seguinte se quisesses. Escrevi uma morada nas notas do teu telefone quando me pediste o meu número - que não te dei. 

 

" Isto é tanga não é? " disseste, eu disse-te que podias ou não acreditar em mim, não tinha como nem porque te provar nada. Disse-te só que ia lá estar. Que a casa não era minha, mas era onde estava a ficar. 

 

E estava. Tocaste à campainha, e enquanto subias as escadas pensei no que estava a fazer.

Tremia, num misto de vergonha, nervos. Sei lá. Era de dia. 

De noite era sempre tudo mais fácil. 

 

E eu desejei muito que a luz automática das escadas fosse ao ar. Não foi. Cinco lances de escadas depois estavas lá. És giro.

Tão giro que eu sabia que eras um poço de problemas. Que eras aquele tipo de pessoa com que ninguém pode descansar, mesmo que sejas a pessoa mais leal do mundo. Mesmo que sejas só conversa mole e 1,90 de gente. Caraças, o teu sorriso é incrivel. 

No lapso de tempo em que tive oportunidade de tirar esta conclusão, percebi também que devias estar mais do que arrependido de estar ali. 

Tens pinta. Tanta pinta. 

 

Acho que caí do pedestal das minhas tretas todas liberais. De repente transformei-me naquilo que nunca fui: A adolescente encantada com o protagonista da telenovela. 

Pequena nota: Eu não era uma adolescente e essa foi a minha sorte. "Sê Racional!"

Desejei que quando falasses fosses a pessoa mais desinteressante do mundo. 

Não aconteceu. 

 

O que aconteceu foi tão intenso como irreflectido. Mas não quis pensar nisso. A intensidade correspondia proporcionalmente ao meu desejo. E três horas depois quando te foste embora, eu ainda tremia. Agora reflexo do prazer. Agora consumida, consumada. Num delírio puro, em transe. Como num filme. A tua pele, tão macia, tão doce. Nada em ti era delicado, as tuas mãos eram firmes, o teu corpo era um monumento. Mas não eras bruto. Fazias-me sentir tão frágil, porque me apreciavas, porque eras estranhamente dedicado, e na ironia das expressões isso fazia-me forte. 

 

Não te quis dar o meu numero de telefone, dei-te o meu e-mail. Quinze minutos depois já tinhas dado uso ao endereço : 

"Vamos jantar?" 

 

Claro que não vamos jantar. Claro que não. Não. / Mas queria ir. Da mesma forma que na noite em que nos conhecemos queria que me tivesses agarrado e me tivesses virado do avesso. Não fui. 

 

Encontrámo-nos algumas vezes. A tua insistência foi motivo de muitas negas. Como a tua persistência deu lugar a alguns "sim". 

 

Muitas vezes ardia de vontade, queria estar contigo. Mas... foi tão bom ter sido racional. Tu eras todo o género "capa de revista" e menino de novela, e com todos os estereótipos que estão nestas palavras, isto queria dizer que correspondias a um ideal de beleza padronizado, e isso fazia-me dar dez passos para trás. 

 

Mas o melhor da nossa história era eu saber exactamente aquilo que tu eras para mim, tu não perceberes bem aquilo que eu era para ti. E ambos estarmos cientes do que se passava entre nós. Desejo / Consumação. 

 

Tentámos sair um dia, os teus amigos eram simpáticos, mas a noite foi horrível. 

Não falámos sobre isso. 

 

Estávamos bem juntos e eu compreendo porquê, eu aceitava-te como Cabrão - Desculpa mas é a palavra. Não brincaste com o meu coração. Não porque eu não o usei. 

Tu insistias em estar comigo porque nunca tinhas lidado com a rejeição. Como se me quisesses mostrar que eras tão desejável que acabaria por me viciar em ti. 

 

Deixámos de falar porque eu deixei de responder. E tu percebeste que a facilidade com que te deixei entrar por aquela porta, foi a mesma com que te fiz sair.

 

 

Não tenho saudades tuas. Não sinto a tua falta. 

Mas lembro-me muitas vezes de ti, principalmente porque nunca fomos mais do que quisemos ser. 

Porque não havia mentira, nem obrigação. Quando adormecia no teu peito era natural. Quando saía de tua casa sem fazer barulho para acordares sozinho... não havia nada de errado. E quando aparecias à porta do meu trabalho e me agarravas pela cintura, só para me dares beijos e me apertares contra o teu corpo forte, eu morria de vergonha, e vibrava com aquela forma de me desejares assim.

 

Como eu era. Sem me criticares. Sem me tentares perceber. 

Querias-me como eu era. Simples. Só por querer. 

 

Espero que tenhas aprendido a Amar, falavas tanto disso. 

Eu não aprendi."


Diário Dela



 

 

 

 

31
Out13

Diário Dela #17

Ana Gomes





"Quero-te.

 

Quero-te com todas as letras. E quero todas as letras desses querer. Quero a conjugação do verbo. Parar na terceira pessoa do singular. 

Eu Quero.

Tu Queres.

Ele Quer. 

 

Ele e Tu. O mesmo. Mas com todos os quereres. De todas as formas. Na complexidade das exigências, do todo. 

 

Não procuro a consumação. Quero-a. 

Não sonho com momentos. Quero-os. 

Não desejo que me tomes como fonte inesgotável de qualquer coisa. Quero-o. 

 

Todas as barreiras e limites são um engrandecer desse Querer. 

 

Não sou guerreira, nem lutadora. Tenho da força os restos que deram aos humanos. 

 

E se o desejo, a procura e os sonhos se adiam. O Querer fica. 

 

Fica por Querer. "


Diário Dela 

 

 

 

 

 

01
Out13

Diário Dela #16

Ana Gomes

"No dia do teu aniversário o meu lugar estava marcado na mesa. 

Por uma questão de boa-educação e de auto-mutilação, fui. 

 

Fiz o caminho que ligava a nossa casa aquela casa a conduzir aos soluços.

Respirei fundo e tentei-me concentrar no bem que aquelas pessoas me fizeram. 

Pior. 

Tão pior. Muito pior. 

Perder tudo. 

Não há ilusões sobre o final. O que se mantém nunca é por inteiro. Vem outra pessoa, que "nunca nos vai substituir", mas vai ocupar o nosso lugar. Pelo menos naquela mesa, naquele lugar. E sem rodeios, em todas as mesas, em todos os lugares. É uma aprendizagem. 

 

Não facilita.

 

Estaciono o carro. Flores para a tua mãe. 

 

Fui. Fui até ali sabendo o que tudo isso significava. Todos longe de imaginar a decisão que tinhas tomado. Só eu e tu. No fundo as únicas pessoas a quem isso diria respeito. Era assim mesmo. A minha cara não iria conseguir esconder isso, tu sabias, mas pediste-me para ir na mesma. 

"É importante para ti?" "Sim, por favor, não me estragues o jantar. Vão fazer perguntas se não estiveres, e é sempre menos mal." 

Ahahah

Queria ouvir " Sim, por favor, não me estragues o jantar. És tão importante, quero que estejas perto."

 

Se é importante para ti, claro que vou. 

 

Sei bem que mais do que presentes, levava o desejo de continuar ali. De no fim do jantar sair dali contigo. E no próximo ano ter aquele lugar reservado à mesa e um sorriso impecável.

Flores para a tua mãe também claro. 

 

Não me lembro de palavra nenhuma, ou de conversas em particular.

Lembro-me de me despedir patéticamente de todos os talheres e copos, de aproveitar o momento em que se apagam as luzes para choramingar, e ver a tua cara iluminada pelas velas que sopraste. Apagaste o "nós" com a mesma facilidade com que apagaste as velas.

Caramba, e eu ali, a ser sentimental com objectos? Despedir-me de facto daquele ambiente, daquelas pessoas todas sem o fazer verbalmente? Sem os abraços e os "tenho tanta pena" - que chegaram depois por telefone. 

 

Por motivos naturais iria ter de te ver mais vezes. E de ti não me sabia despedir. Queria-te ver todas as vezes. Queria pensar que a excepção seria a ausência. 

 

Mentia-me. Escondia-me atrás da esperança do "gosto tanto de ti que não sei porque decidi isto." Ias decidir certo. Ias mudar de ideias.

Antes de eu mudar de vida, de país, de ideias, de ideais. Tu ias voltar para o meu sofá, para as nossas viagens de impulso, para as madrugadas de filmes, para as gargalhadas, para as cenas inóspitas que nos faziam pulsar. E para aquela atracção louca que nos juntou no meio de tanta gente em comum que nem sabíamos que conhecíamos. Quando nem sabíamos muito bem o que iríamos ser um para o outro. 

 

Voltei para casa. A soluçar no carro. Com a música tão alto que não me conseguia ouvir pensar. Muito provavelmente não ia a pensar em nada. 

Dói-me muito. Doeu-me tanto. 

Pior foi acordar da dormência. Pior foi chegar a todas estas conclusões. 

Pior foram as nódoas negras depois do sangue pisado. "

 

Do Diário Dela... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

23
Ago13

Diário Dela #15

Ana Gomes




"Saí do avião e esperei num café pouco simpático -por baixo do aeroporto- que chegasses. 

 

Em Roma dormíamos num quarto esquisito. Não conseguíamos sequer adormecer naqueles lençóis.

 

Na rua as temperaturas eram abaixo de zero. E valiam-me as leggins por baixo das calças de ganga. E as camisolas quentes, sempre invisíveis por baixo de tanto casaco. Andávamos de "luvas" dadas. E raramente sentiamos o toque da pele. Coberta por exigência da natureza. 

 

Não existia a ilusão do pequeno-almoço de hotel. E o banho tinha de ser rápido. A água quente acabava depressa. A tua paciência para aquele tipo de fraca hospedagem também. 

 

Para não nos perdermos tínhamos como ponto de referência a estação de comboios - TERMINI. 

Um suspiro era a indicação de que um Carabinero passava por perto. A tontice da pós-adolescência revisitada. Só para te provocar. Só para saberes que não tinha perdido a capacidade de apreciar.

 

Decidimos investir parte do nosso capital num bilhete diário para o autocarro turístico. Transporte pela cidade e alguns pontos de referência e estava feito. Validade : 1 dia. 

Utilização real : todo o tempo que por lá estivemos. 

 

Andámos kms para encontrar uma gelataria, outros tantos kms para encontrar um capuccino. Referências que eu trazia marcadas num mapa emprestado em Portugal. Outras que tu trazias devidamente documentadas no guia da cidade.

Acabámos por eleger o do Macdonalds como o melhor capuccino de Roma. Na realidade era o único de qualidade que podíamos pagar. E ficou marcado no nosso roteiro um selo de garantia de que não era mesmo nada mau. 


Fontana di Trevi, olhos fechados e um tiro certeiro. Moeda atirada desejo pedido. 

Deixámos o Coliseu para outras núpcias. E divertimo-nos a observá-lo por fora. Sempre. Todos os dias. 

Cheio. 

 

Repetíamos o nome dos sitios por onde passávamos para nos familiarizarmos com os lugares. 

Aquela cidade não era uma novidade para nenhum de nós. Mas fingimos encontrar cada esquina e cada lugar pela primeira vez. 

Dispensámos o Vaticano, pelo cepticismo que nos rotulava. E por nos sabermos pecadores. 

 

Apesar de tudo eu achava um máximo que as caixas postais fossem amarelas, e não vermelhas como no resto da cidade. Explicaste-me o que já sabia " É que o Vaticano é o Estado mais pequeno do mundo, é como se estivesses noutro país. Quase a mesma coisa." .

 

Das pizzas e das massas não ficou muito para contar. Lembro-me de uma ou duas fatias compradas de madrugada, num balcão. Cortadas e pesadas em formas rectangulares. Seria demasiado poético dizer que nos alimentávamos de amor. 

Naquele tempo o queijo fatiado e o pão embalado sabiam a piqueniques na montanha. E brincávamos quando nos sentávamos numa escada e afirmávamos que tínhamos almoçado no parlamento, ou num qualquer outro edifício com ar de monumento. Ou não fosse assim a cidade inteira. 

 

Roma não foi amoR escrito ao contrário. Roma foi amor escrito direitinho. 

Simples, frio, aquecido pela experiência, desafiante, e solitário. Os dois sozinhos um com o outro. 

 

Roma não foi quase nada.

Roma foi isso tudo. "


Diário Dela

 

 

 

 

06
Ago13

Diário Dela #14

Ana Gomes

 

 

 

"Há dias em que o mundo me enerva.

 

Olho para as noticias, olha para as mensagens, olho para tudo e começa. 

Re-começa. 

 

A semana passada deste-me a explicação que precisava.

Senti-me a corar. Eram 4 da tarde, a água da massa do almoço começou a borbulhar, eram estes os nossos horários. Almoços sempre por volta das cinco. 

Eu olhava para ti e pensava que queria ser aquele monte de legumes em que tu pegavas e misturavas debaixo da torneira. 

 

Disseste :

Sabes porque é que não te toco? Porque perdeste o interesse.

 

Fiquei sem cor. Acho eu. Eram 4 da tarde, a água da massa começou a sair por fora da panela, correste para baixar o lume. A água do meu corpo começou a escorregar pelas maçãs do meu rosto desmaiadas.

 

Continuaste :

 

E não te ponhas com merdas. Não é o teu corpo, nem a tua cara. É... intelectualmente... perdeste o interesse. E a culpa disto é tua. É principalmente quando falas, ou quando te calas. Já nem sei. Não tenho a mínima vontade de te tocar. 

 

Uma semana depois continuo a sentir a culpa das coisas todas. De tudo. Da tua tristeza. Do teu desalento. Da tua não vontade. Da minha atrasadice mental. Das minhas - cada vez mais demoradas - manhãs ao espelho a encher-me dos segredos que as mulheres guardam, que nos fazem parecer mais bonitas, mais perfeitas, mais ao teu gosto. Tentei não te irritar com a minha forma de vestir, lembrar-me de cór de todos os conjuntos que tinhas elogiado. Repetir as conjugações. 

Uma semana depois percebo que o iman que activei estava com os polos invertidos. 

MERDA. 

 

Deixei de ir ao cinema para te poder dar apoio, deixei de ver filmes em casa para podermos utilizar o tempo ao nosso ritmo. Conciliar o meu emprego com o teu horário. Passei meses a trocar os jantares demorados com os meus amigos, por planos indefinidos com os teus. Sem me sentir mal por isso. Envergando dentro de mim um orgulho de proximidade. Envergando para ti um rótulo de "pessoa desinteressante".

 

Disseste-me a maior verdade que alguém me poderia ter dito " Eu apaixonei-me por ti. Pelo que eras no dia em que te conheci."

 

A tua capacidade retórica ainda hoje me impressiona. Desculpa o meu português... Mas eras um filho da mãe cheio de razão. 

 

Fizemos amor em todos os sitios que imaginámos. Todos. Compreendemos a extensão do corpo um do outro numa prefusão não adjectivável, em que nos compreendíamos, satisfazíamos e corrompiamos o que a nossa imaginação sabia que não devia ser partilhado. Não conhecíamos uma coisa : os limites do razoável. Os limites dos jogos mentais em que a angústia era prazer. Em que saberes-me com outra pessoa era o apogeu da tua masculinidade. 

 

E subitamente, eu, o segundo elemento da equação matemática sempre certa. Estava errada. 

 

Intelectualmente desinteressante disseste tu. "

 


Do Diário Dela

 

 

 

 

 

 

 

30
Jul13

Diário Dela #13

Ana Gomes




"

Secção de bolachas do hipermercado.

 

A tentativa de equilibrar um saco de folhas de alface pré-lavado, três sacos transparentes com :

 

laranjas, maçãs e bananas. Pão escuro fatiado. Cenouras baby congeladas. Uma das minhas mãos anestesiada com o frio. A circulação interrompida pelo peso dos sacos. 

 

Procuro umas bolachas. Não umas em especifico. O género que procuro encontra-se na categoria : que me façam sentir culpada dentada atrás de dentada.

Decido-me por umas cookies, com pepitas de chocolate. Branco, vai ser chocolate branco. 

 

O meu telefone a tocar : notificações de facebook. É a porcaria dos grupos. As notificações dos grupos. Nada que me interesse particularmente. Nem sequer consigo agarrar o telemovel. Enfio a mão na carteira, mas aleijo-me nas cháves, percebo que abri sem querer a agenda e que os papeis soltos se espalharam, lembro-me do talão de troca do vestido que comprei. Espero que não se rasgue. Esqueço o telefone. Concentro-me nas bolachas. 

 

 

Na minha direcção correm duas pessoas pequeninas, iguais, de sorrisos rasgados, desdentados e com caracois desalinhados. Gritam. Riem. Estão claramente felizes. Tropeçam neles próprios, agarram os sacos coloridos de doces. Pegam em bollycaos. Acho que ainda se chamam assim. Ouço-os rir mais alto. 

Alguém os está a chamar. Uma mulher empurra um carrinho e barafusta impaciente, que precisa que se comportem, que precisa de ajuda. Acho que a compreendo. Eles encontram nas minhas pernas o refugio perfeito, e eu tento não me rir com a mãe. 

 

Reparo melhor nos miúdos. As mãos pequeninas sujas das canetas da escola.

 

E depois reparo em ti, que vens num passo apressado, a empurrar outro carrinho, de camisa de fato. Como se a fosses despir e revelasses o teu fato de Super Homem. Telemóvel numa mão, a aliança de casado na outra. 

 

Foi assim que conheci a tua família. 

 

Foi assim que desisti das cookies. Que deixei cair a porcaria das cenouras. Que contei com a ajuda preciosa dos teus filhos para as levantar do chão- a quem agradeci. E a quem me apeteceu pedir que me deixassem ficar ali no chão. Onde de alguma maneira fiquei.

Foi assim que tive de sorrir para a tua mulher por os ter incentivado a "ajudar a senhora."

 

Não foi uma surpresa. Foi só um choque.

 

 

Não foi nada de especial. Foi só uma ida ao supermercado em que levei mais do que queria comprar. 

 

Este foi o dia em que conheci a tua família." 



 

 Diário Dela. 

 

 

 

 

19
Mai13

Diário Dela #12

Ana Gomes


"Deixa estar. 

Deixa-te estar. 

Deixa-me - acima de todas as coisas - estar. 


Eu não te pedi para abdicares de nada. De mim talvez. Implicitamente. 

Não saber bem o que fazer depois, fez-me fechar a porta. Tu tinhas a chave, eu não mudei a fechadura. 

Por isso nada mudou. 


Fui tirando as coisas do lugar, mas não as arrumei. 

Fui só ajeitando e acertando as posições. Questões de conveniências diárias. 

Simples. 


Mantenho a distância de segurança que me permite continuar.

Mas é impossível não me cruzar com o que tu és. 

Eu reconheço a razoabilidade das tuas atitudes na porporção inversa aquela com que não percebes a minha posição. 

Tão pouco compreendes que onde existiu tanto amor, exista agora apenas um vazio que não preenche o meu corpo. 


Nunca poderás saber que não quis deixar de adormecer com a tua respiração. 

Muito menos te devem alguma vez dizer que aceleras o meu batimento cardiaco, ou que quando o meu corpo escorrega encharcado do banho da manhã, quero que sejam as tuas mãos a embrulhar-me a toalha num abraço. 

E vou sempre mentir, sempre.

Porque não posso dizer que contigo me sentia tranquila. Me sentia protegida. E a única instabilidade que tinha era o medo de não te saber fazer feliz.


Mas eu nunca vou dizer que esta era a verdade. 

Está frio. A casa arrefeceu. Fecho as janelas e tranco a porta. 

Deixa-me estar. 


Pouso a minha mão direita sobre a minha mão esquerda. Aperto-as uma contra a outra, com a intensidade que preciso para sentir que serias tu ali. 

Enquanto gritam comigo, enquanto calam a minha vontade, enquanto me empurram, eu aperto as mãos. A minha contra a minha. 

Para sentir a tua. 

Deixa estar. "


Notas Perdidas no Diário Dela. 

 
27
Abr13

Do Diário Dela #12

Ana Gomes





"Acordaste-me com beijos nos olhos. 

 

Disseste que eram a coisa mais preciosa que tinha. Trazia o coração nos olhos e conseguia olhar para o mundo com a compaixão de quem quer o bem. 

Por isso - dizes - gostas de me acordar com beijos nos olhos.

 

Fingi que dormia. Fingi que não tinha despertado muito antes de teres recuperado os sentidos para a vida. 

Senti-te levantar, ligar a máquina do café, fumar o cigarro que pensas que não sei que fumas, enquanto te imaginava em vertigem com o corpo pendurado para a rua, para que o odor cinzento não enchesse a casa. Ouvi-te a escovar os dentes furiosamente e a aquecer a água do banho. Nunca te vou contar que sei. Gosto de te dar o prazer e a adrenalina das coisas que se fazem em segredo. 

 

Continuei a fingir que não era nada comigo. 

Entendeste que estava cansada. Acabei por te deixar adormecer encostado ao que sobrava do meu corpo na cama. 

 

Saí, sem fazer barulho, sem te despertar. Se tu fingiste, como eu fingi, pouco me importa. 

Voltei a pintar as unhas de vermelho sangue. Enquanto fumava o cigarro que imagino que não saibas que fumo. 

Ou então jogas comigo o mesmo jogo que jogo contigo. Abro um dos quatro livros que estou a ler. 

Pego na caneta. Sublinho furiosamente frases que considero tão bonitas como revoltantes. Encho um copo de água. Parto as drogas em pedaços mais pequenos. São muitas. Mas assim parecem pedaços de açúcar que se dissolvem algures na minha corrente sanguinea. Deixo a àgua para o chá ferver, e visto o meu casaco de uma rasca imitação de seda que não me protege do frio, mas sempre me acaricia a pele. Gosto do toque. 

Gosto mais do toque desta imitação barata do que da sensação das tuas mãos àsperas. Desculpa. Sou uma besta.

Mas dizes que aprecias a minha honestidade, apesar de eu saber que aquilo que não calo te dói. 

 

Pego no telemóvel, vejo as mensagens, vejo as fotos, faço um puzzle da noite passada. Tenho que responder a certos e-mails com uma urgência que me inquieta. Todas as urgências me inquietam. 

 

Ouço-te a mexer. Podes ter acordado. Antes que me encontres no caos que o principio do dia me tornou corro para a banheira. Ponho música baixinho, como se não te quisesse acordar. Tomo um banho. E rio-me. Rio riu rio. Sem fazer barulho. 

 

O disparate do jogo do gato e do rato que acabamos a jogar é esquisito. 

 

Pag. 398 " 

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